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domingo, 13 de fevereiro de 2022

Pós-covid

Essa semana faz um mês dos primeiros sintomas da minha infecção da covid. Diria que o pior foi o psicológico do que a parte física. Tive alguns sintomas bem leves nos primeiros dias e só. O pior para mim tem sido a sensação dos possíveis efeitos pós-covid. É natural que alguns sintomas fiquem por um longo tempo, mesmo a infecção sendo leve.

Comigo, qualquer coisa que aparece eu fico me perguntando se é sequelas da covid ou outras causas. Algumas dificuldades respiratórias que lembram muito sinusite aparece de vez em quando. 

Nos primeiros dias, quando vi que seria um quadro leve, eu fiquei muito relaxado. Até fui a praia, coisa que não fazia há mais de dois anos. Entrei em comércios, outra coisa que não fazia tinha muito tempo. Sempre com aquele cuidado que as pessoas podem até estranhar, mas pelo menos dei esse passo de entrar em um local fechado. 

Mas foi só isso que fiz. Fico com medo da reinfecção que, mesmo não sendo comum em curto prazo, pode acontecer. 

Aí qualquer sintoma físico eu já acho que é a doença de novo. Meu relativo relaxamento logo após os 10 dias dos sintomas já sumiram praticamente e estou quase tão preocupado quanto antes de pegar. Fico vendo as pessoas pela rua sem máscara e fico com inveja. Queria ser mais tranquilo e não ficar tão preocupado, embora ainda ache que as máscaras são necessárias.

Mas queria me livrar dessa vigilância constante das sensações corporais. Será que um dia isso vai acabar?

 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

COVID-19: chegou a minha vez

Quase dois anos depois, eis que recebo o resultado: "detectado". Fiquei um pouco ansioso hoje, é verdade, mas já estava aceitando que estava infectado desde o início dos sintomas, no domingo. Acho que no primeiro dia eu fiquei pior (fisicamente e psicologicamente). A medida que os sintomas se mostraram não diferentes de um resfriado leve, fui ficando menos tenso. 

Ainda é cedo pra declarar vitória, eu sei, mas espero que meu maior incômodo com a covid seja aquele cotonete no meu nariz.

Analisando todos os dados e lendo os relatos, eu já tinha aceitado que meu dia chegaria mais cedo ou mais tarde. Sou considerado por muitas pessoas alguém que exagera nos cuidados. Pois é, e aqui estou eu também entre as dezenas de milhões de brasileiros.

Com tudo que estava lendo, eu sabia que seria muito difícil me livrar de uma variante tão contagiosa assim. Não posso afirmar 100% que seja a tal, mas com mais de 95% de positivos nos testes por aqui, acho difícil que não seja. 

O mais curioso é que peguei sem sair de casa. Não saía de casa desde o final de 2021. Mas acontece, nem todo mundo pode se prender em casa que nem eu e posso ter pego de familiar ou de algum entregador. O fato é que esse tipo de especulação não me ajudará a ficar melhor, no máximo para ilustrar o quão fácil está de pegar essa variante.

Quando comecei a desconfiar que estava infectado, um lado meu estava torcendo para o teste dar positivo. Porque estar positivo significa que estou livre de pegar de novo por um mês, sendo conservador. Isso não quer dizer que vou chutar o balde, mas me dá um certo tempo para tratar de coisas externas. 

Estou bem e espero que continue assim. Claro que ando observando cada sensação no corpo, mas nada que me preocupe tanto.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Cansaço

Estou tão cansado. Não o cansaço de quem anda trabalhando muito. Nesses dias estão sendo muitas horas de trabalho, mas nada que eu não tenha feito muitas vezes antes. Acho que tenho preenchido meus dias com muitas tarefas justamente para não pensar muito, o que poderia ser curioso, já que minhas atividades são essencialmente intelectuais.

Mas o cansaço que realmente me incomoda é outro. Estou cansado de ser eu. 

Cansado de sentir tudo o que eu sinto diariamente, coisas que foram tão agravadas nessa maldita pandemia. Isso tirou tanto de todos nós, vidas e tempo que nunca recuperaremos. Para pessoas como eu, serão marcas que carregaremos até os últimos dias.

Queria ser diferente, simplesmente apertar o foda-se. Mas eu não consigo, passo os dias preso aos meus pensamentos que não me deixam em paz.

Nas minhas orações diárias, a única coisa que peço para mim é para encontrar paz. 

Eu que quis tanto, que briguei por tanto, que corri por tanto, agora só desejo paz em meu coração. 

Porque estou muito, muito cansado de não viver em paz.


sábado, 1 de janeiro de 2022

E vamos para mais um ano

Diferentemente de 2020, passei essa virada com minha mãe. Finalmente consegui criar coragem e vim para a casa dela no final de novembro. Acredito que, sem querer, escolhi a janela perfeita para encarar a longa viagem dentro de um ônibus. Se tivesse enrolado duas semanas a mais, a coragem iria embora diante do surgimento de mais uma variante e também da epidemia de gripe que explodiu na minha cidade e aqui.

Em um ano tão difícil, especialmente no primeiro semestre, pude me dar esse presente: estar com minha família. Ainda não consegui ver meu irmão, mas o fato de ter visto a minha mãe, irmã e a mais nova integrante da família foi o ponto alto desse ano que passou.

Nesse pacote também pude rever o mar. Cada vez que venho para cá fico me perguntando porque ainda moro em cidade grande. Claro que aqui tem problemas, mas poder ver o mar todo dia compensa tudo. Sempre que venho para cá fico refletindo que deveria achar um jeito de alinhar minhas expectativas acadêmicas com os benefícios de morar nesse paraíso.

Ou, quem sabe, reconhecer que não posso ter as duas coisas e escolher o que realmente eu quero da vida. 

Naquelas reflexões de final de ano, acho que esse é O grande ponto. Se por um lado, vejo que tenho avançado em pontos importantes estando lá, por outro tem o sentimento que a vida é muito curta e preciso aproveitar agora. 

Apesar do primeiro semestre muito ruim, o ano em si foi positivo. Voltei a fazer terapia, avancei muito na quitação da minha maior dívida e até comecei a guardar um pouco para o futuro. Nesse segundo semestre procrastinei muito menos também. Embora não hajam certezas, os planos profissionais para os próximos dois anos estão delineados e com isso a boa expectativa de manter o fluxo financeiro normal.

Os fantasmas que me assombram ainda estão comigo todos os dias. Mas, quando consigo focar no que tenho que fazer ou simplesmente curtir a vista do mar, parece que tudo fica estável. Queria ter sempre comigo o sentimento que tive na primeira vez que vi o mar depois de tanto tempo. Foi uma alegria tão grande que praticamente não apareceram os pensamentos pandêmicos. Eu simplesmente desfrutei.

Sei que tem muito mais a ver com o que tenho dentro de mim do que com a vista maravilhosa. Talvez eu precise encontrar em mim essa capacidade de desfrutar mesmo estando na selva de pedra. Mas penso muito em como seria boa a minha vida se eu pudesse morar aqui. Estaria perto da minha família e numa cidade maravilhosa. Só faltaria pagar as contas. Na minha área profissional existem possibilidades mesmo eu tendo mais de 40, é verdade, mas não sei se é com isso que quero trabalhar. O mundo acadêmico me abriu horizontes com que me identifico muito mais do que o mundo corporativo. 

Há coisas a decidir e logo. Parece que agora o relógio anda mais rápido do que quando eu estava na casa dos 20-30 anos. Talvez por saber que escolhas implicam em renúncias, o que preciso para 2022 é decidir o que quero da minha vida. 


domingo, 14 de novembro de 2021

Histórias de amor

Acho que nunca usei tanto YouTube quanto nessa pandemia. Sempre fiquei muito conectado na plataforma, mas estar em casa 24 hs por dia me fez usar ainda mais. E, numa das minhas andanças pelo YouTube, acabei ficando viciado numa novela. Sim, uma novela. Novela como outra qualquer, mas, por alguma razão, a história de amor dos protagonistas mexeu comigo de uma forma que fiquei triste quando a novela acabou. 

Fiquei dias tentando entender porque eu estava sentindo aquele vazio, mas acho que hoje consigo entender um pouco. O romance dos dois protagonistas me fez sentir coisas que tem muito tempo que não sentia e o fim da novela foi como o fim dos sentimentos diários que a novela me trazia. Algo como aquele vazio característico após o fim de um namoro.

Estive tão envolvido com a história, que passava todas as partes que não tinham os dois protagonistas e praticamente apenas assisti as cenas dos dois. Revi algumas vezes as cenas mais importantes: primeiro beijo, pedido de casamento, casamento, brigas, volta, etc. 

As sensações dessas cenas talvez tenham me lembrado sensações que vivi nas minhas histórias de amor. Não foram muitas e não tão profundas como na ficção, mas estão no meu passado. E aí me lembrei como é bom viver histórias assim. Não falo daquela coisa de conhecer alguém, beijar e tchau. Até porque isso na minha vida foi quase nada.

Me refiro a histórias onde se conhece alguém, os primeiros contatos, aqueles sentimentos de "será que ela se interessa por mim?", as tentativas de se aproximar até que finalmente acontece algo. Sinto falta dessas sensações, das incertezas, de pensar em alguém o tempo todo, em formas de agradar, da sensação do toque, do beijo...

Pode ser carência, mas não sinto falta apenas de coisa física. Lá se vão 5 anos desde o último beijo e transa, mas sinto falta mesmo de viver um romance com todo o seu caminho. Queria me apaixonar novamente, mesmo sabendo que o caminho das histórias de amor não são sempre repleto de flores. Queria ter essas sensações de volta, pelo menos mais uma vez.

Parei de acreditar que vou encontrar a "certa", como o Ted Mosby,de How I met your mother, mas realmente queria sentir essas coisas de novo. Até andei navegando pelos apps de encontros, quem sabe seja algo que farei mais na vida pós-pandemia. O fato é que a vida é muito curta e não é ficando trancado no meu mundo que vou encontrar isso de novo fora do mundo da ficção.


sábado, 16 de outubro de 2021

Se eu pudesse voltar atrás (2)

Li, num livro sobre budismo, que a principal causa do sofrimento é o apego. Olhando para trás na minha vida, vejo o quanto essa afirmação encontra fatos que a corroborem. Apego nem sempre tem a ver com pessoas ou coisas, mas pode até estar relacionado a uma posição profissional, um "nome", etc. Na questão profissional, o apego não me trouxe apenas sofrimento, mas uma dívida imensa que eu pago até hoje e que estará comigo por mais uns dois anos.

No início da vida profissional de quem vai para a faculdade o normal é começar aos poucos, com estágios nos quais vamos adquirindo experiência. Depois disso, aparecem empregos melhores e cada um pode ir subindo na carreira. Pelo menos é isso que normalmente acontece com quem estuda onde eu fiz faculdade. Mas quem disse que as coisas são normais na minha vida?

Não sei da vida de todo mundo que estudou comigo, mas sei que a grande maioria está em cargos de destaque em grandes empresas ou faculdades. Alguns até fundaram empresas que hoje são sucesso e todo mundo fala. Esse é o caminho natural de quem estuda onde eu estudei. Não para mim.

Desde o primeiro semestre eu já trabalhava, pois era como conseguia me manter numa cidade longe da família. Mas era um trabalho na própria faculdade e isso não atrapalhava meu tempo para estudar. No segundo ano, me envolvi com atividades estudantis não-remuneradas. Apesar de não ganhar dinheiro, aprendi muito sobre postura profissional e fiz uma rede de contatos que tenho até hoje. 

Qual foi o problema então?

O problema, como em qualquer coisa na vida, foi o excesso. Eu estava mais comprometido com essas atividades do que com as aulas e isso explica porque demorei tanto a me formar. Teve um semestre que eu fiz apenas 10% dos créditos de disciplinas esperadas no semestre. Além disso, como acabei tendo uma posição de destaque nessa atividade, eu procurava me dedicar mais do que todo mundo apenas para mostrar que eu era o melhor. Não tinha esse tipo de medida, mas eu gostava de pensar que eu era o destaque.

No terceiro ano de faculdade, eu comecei um estágio remunerado na minha área e ainda mantinha essas atividades estudantis. Que tempo sobrava para estudar? Nenhum.

Neste estágio eu logo me desenvolvi muito rápido e alcancei uma certa posição de destaque na empresa. Ali meu espírito competitivo também estava presente e eu não queria perder meu destaque quando outros "competidores" entraram na empresa quando ela cresceu. Então tentava fazer o máximo possível e sofria porque não conseguia ser o mesmo destaque de antes, quando a empresa era pequena. Ao mesmo tempo, eu estava no meu "casamento" conturbado e isso de certa forma afetava meu desempenho profissional.

Naquela época muitos colegas estavam abrindo empresas. Era o boom dos negócios de Internet no Brasil e logo surgiram possibilidades para mim também. Eu estava tão apegado a ideia de ter uma posição de destaque que não pensei duas vezes quando surgiu a oportunidade de abrir uma empresa com outros colegas. Na nova empresa eu seria um dos donos e isso fazia bem para a minha vaidade, já que no estágio que eu estava não tinha mais esse destaque.

Então larguei uma empresa que me pagava razoavelmente bem e fui abrir a minha. Quando olho para trás, vejo que essa foi uma das minhas grandes burradas. Enquanto meus sócios tinham uma certa reserva financeira, eu comecei na empresa nova sem nada no bolso. Ou seja, saí de uma situação que tinha salário para outra que não sabia quando ia ter salário. A vaidade me deixou tão cego que não fiz as contas simples que qualquer pessoa faria na situação.

Enquanto isso, boa parte dos meus colegas de turma estavam crescendo em seus empregos ou arrumando outros melhores. Para muitos deles já estava perto do final do curso e era mais fácil conseguir bons empregos. Não para mim, pois estive tão envolvido em atividades extracurriculares que me formaria dois anos depois dos outros.

O primeiro ano da empresa foi bem complicado. Os trabalhos que pegamos estavam demorando a nos pagar e as contas não paravam de acumular. Nesse ano eu recebi o primeiro aviso de despejo da minha vida e as coisas estavam muito ruins. 

Ainda era uma época que era fácil conseguir outro estágio, já que as exigências para estagiários é bem menor do que empregados. Bom, pelo menos era assim antigamente. E estudar numa instituição de ponta abria muitas portas para mim. Mas, mesmo assim, nem passava pela minha cabeça fechar a empresa e voltar a ter salário.

No final do primeiro ano, meus outros sócios, quase que ao mesmo tempo, decidiram sair da empresa. Suas reservas financeiras tinham acabado e fica difícil recusar ofertas de trabalho numa situação dessa. Vejo muitas histórias de empreendedores, mas normalmente as coisas são muito romantizadas. Na prática, sem ter um respaldo, era natural que meus sócios não resistissem às ofertas que apareciam, já que nossa empresa mal tinha rendimentos e as coisas não estavam dando certo.

Qual seria a escolha natural ali? Fazer o mesmo que meus sócios e voltar para o mercado de trabalho. Mas aí não seria eu, né?

Então, resolvi continuar com a empresa só eu. Na minha cabeça, bastava eu terminar os projetos pendentes e o dinheiro que entrasse seria suficiente. Além disso, contava o fato de que eu não queria assumir que tinha fracassado e não queria sair da posição de dono para voltar a ser um estagiário. 

Assim a empresa continuou por mais 11 anos, comigo lutando sozinho boa parte do tempo para ter projetos. Na melhor época, cheguei a ter quase 10 estagiários. Nos últimos 6 anos da empresa, quando as coisas fracassaram de novo, a empresa voltou a ser só eu, sem escritório e comigo trabalhando de casa ou atuando em clientes. Em um cliente cheguei a ficar por 3 anos diariamente, era quase como um emprego.

O fato é que fora esses 3 anos, a maior parte do tempo a empresa era só aperto financeiro. Eu mal conseguia pagar minhas contas e deixei de pagar impostos. Entre pagar o aluguel/comer e o imposto, era uma escolha muito fácil. Foram muitos anos vivendo assim e até hoje estou pagando todas as dívidas que eu fiz nessa época.

Por que não fechei então?

Estava tão apegado a ideia de ser dono, de ser destaque, que não enxergava o óbvio: assim como meu casamento, a empresa iria naufragar mais cedo ou mais tarde. Eu não queria admitir que tinha fracassado e ainda queria ser o "dono". Quando estive no momento mais terrível da minha vida, parei com tudo e voltei ao mercado de trabalho. Mas aí o prejuízo já tinha sido muito grande, não só financeiro.

Com esses anos todos tentando fazer a empresa funcionar, eu envelheci e o pior: fiquei desatualizado. Isso na minha área é fatal. Se quando estava na faculdade era fácil conseguir estágio, com 36 anos de vida e desatualizado nas tecnologias tudo era mais difícil para mim. 

Fiquei tão apegado a ideia de ser empresário que descuidei de tudo. Uma pessoa muito sábia me disse, bem no início da minha empresa, que eu não deveria deixar de lado a minha empregabilidade. Mas o apego a um navio afundando me fez esquecer desse conselho. Resultado: tinha 36 anos de idade quando parei com a empresa, com inglês básico e bastante desatualizado na minha área.

Pago até hoje o preço dessas escolhas erradas. A dívida em si vai ser quitada logo, mas afundei minha possibilidade de ter uma carreira. Com mais de 40 anos de idade, o tempo parece que passa mais rápido, o corpo e a cabeça não são mais os mesmos e não tenho uma reserva material que me sustente. 

Então, se eu pudesse voltar atrás, teria fechado a empresa lá no primeiro ano e saído junto com meus sócios. Ou teria fechado quando tive que escolher entre pagar as contas de casa ou da empresa.

O sonho de ter uma empresa de sucesso é muito bonito naquelas palestras de Tedx ou postagens no LinkedIn. Alguns de fato conseguem chegar lá, mas a maioria não vai chegar.  Não diria para as pessoas deixarem os sonhos de lado, mas equilibrar com o pragmatismo de quem tem contas para pagar e não é rico.

No meu caso, o apego me deixou cego para a realidade naquela época e agora aqui estou eu, preocupado como irei me manter quando eu for idoso.






segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Se eu pudesse voltar atrás (1)

Nem sempre minhas postagens são em momentos de ansiedade ou quando preciso botar algo pra fora. Às vezes são só divagações mesmo, embora nem sempre venha aqui colocar no "papel" quando estou nas reflexões sobre a minha vida.

Estava assistindo um episódio de This is Us em que um dos personagens fica imaginando cenários da sua vida se tivesse tomando uma certa decisão em relação ao seu pai. Lembrei do que escrevi sobre desejar às vezes que isso tudo fosse um sonho ruim e pudesse acordar para fazer a escolha certa, tal como acontece em alguns filmes. 

Tem tantas coisas que gostaria de poder voltar atrás e fazer diferente. Muitas delas têm a ver com relacionamentos e hoje lembrei de uma ex. Na verdade, tenho lembrado dela às vezes e tive a curiosidade de pesquisar sobre ela nas redes para saber como ela está.

Ela foi minha primeira namorada, então já faz um certo tempo. Foi a primeira com quem tive relações sexuais e chegamos a morar juntos. Acho que no total foram quase 4 anos juntos e estávamos ainda na faculdade. Eu também fui o primeiro dela e acho que muito dos sentimentos de culpa que sinto tem a ver com ela. Por outro lado, tem muito a ver com o mal que eu fiz a mim mesmo pelo terrível sentimento do apego.

A falta de amor próprio e baixa confiança em mim mesmo vem de muito longe. E isso tornou nosso relacionamento muito ruim em vários momentos. Eu tinha muito ciúme dela e sempre achava que ela iria se interessar por outra pessoa ou que alguém iria dar em cima dela e ela iria preferir essa pessoa. Morria de medo de ser traído. Estávamos em um curso em que ela era uma das poucas mulheres e isso aumentava ainda mais a minha insegurança.

Lembro que toda vez que ela saía sem mim, quando voltava pra cidade dela, eu ficava sofrendo muito imaginando que alguém iria dar em cima dela e ela não resistiria. Além de ter dificuldade em confiar nela, achava que qualquer pessoa seria mais interessante do que eu. Mas não a culpo, o problema da falta de confiança era só meu. 

Nunca fui de fazer escândalo por causa de ciúmes, o meu jeito era ficar com cara de emburrado até ela perguntar o que eu tinha. E aí vinham as discussões. Era tão insano que, quando ela saía na cidade dela, mesmo em compromissos familiares, eu pedia para ela me ligar quando chegasse. Chegou num ponto que fui procurar terapia no serviço da faculdade. Nesse ponto sou grato, já que conheci a psico que me acompanhou por uns anos e fez muito por mim.

Além das discussões que aconteciam por causa do meu ciúme, ela me dava vários sinais que aquele relacionamento não teria vida longa. E eu não estava satisfeito com o que tínhamos, mas nunca tive coragem de terminar. Achava que era melhor estar assim do que voltar para a vida de ir para baladas e não conseguir me aproximar de ninguém, vendo meus amigos ficarem com alguém e eu passando em branco.

Na época do primeiro término, ela me escreveu uma carta, mesmo a gente morando junto. Felizmente lembro pouco dessa carta, mas ela falava que queria experimentar outras coisas, que era muito nova para estar presa. A parte que me mais doeu, e nunca esqueci disso, foi quando ela se referiu a características físicas minhas que, mesmo eu melhorasse, ainda assim ela não se sentiria atraída por mim. Em resumo: me chamou de feio de maneira delicada.

Aí ela terminou comigo e separamos de casa. Lembro que sofri muito e até chegava a acessar o email dela para saber o que ela estava fazendo. Quando li que ela ficou com um cara eu fiquei muito mal. Mas isso me ensinou que acessar dados dos outros é uma coisa muito errada. Depois disso, nunca mais quis saber senha de ninguém e nunca deixei que acessassem as minhas coisas.

Passamos uns dois meses separados e acabamos voltando. Acho que tínhamos nos acostumado um com o outro e carência deve ter batido para ela. Como eu era a opção disponível e ainda gostava dela, não me importei com tudo o que passamos no nosso término. Olhando pra trás, com tudo o que ela falou pra mim naquela término, eu nunca deveria ter voltado. Não por rancor, mas por saber que, apesar das palavras cruéis, ela foi muito sincera naquela carta. Logo, eu não tinha ficado bonito dois meses depois e ela continuava sem ter todas as experiências que gostaria de ter tido como solteira.

Quando voltamos, as coisas não mudaram muito. Não morar junto era bom, mas as crises de ciúme persistiam e ela reclamava às vezes que a vida tava passando sem poder aproveitar as coisas. Eu enxergava que aquilo ali não ia dar certo mesmo, mas continuava sem coragem de terminar. Penso em como teria aproveitado melhor a vida universitária se não estivesse tanto tempo preso num relacionamento que eu mesmo sabia que não tinha futuro. 

Mas não tinha coragem de dar o passo e coube a ela mais uma vez fazer o favor de terminar tudo. Eu sofri nesse término também, mas me sentia mais aliviado e não demorei muito para seguir em frente. Depois de um mês, eu já estava ficando com outras pessoas. Aliás, foi meu único momento da vida que fui o "pegador". Tudo bem que isso é um final de semana fraco para a maior parte dos caras, mas três ficadas em 2 meses era um super recorde pra mim. Isso foi uns meses antes de "conhecer" aquela que eu considero a mulher que mais amei na vida.

Eu sou muito grato com ela nesse nosso "casamento". Ela foi uma grande amiga, me ajudou em momentos muito difíceis da minha vida e sua família me acolheu de uma forma muito especial. No fim, acho que foi isso: grandes amigos que transavam às vezes.

Mas me arrependo de ter enchido tanto a paciência dela com meu ciúme. Queria ser uma pessoa mais confiante nos outros e em mim, principalmente. Me arrependo de decepcionar os pais dela quando descobriram que transamos e que estávamos morando juntos. Se soubesse que o que sei hoje, nunca teria topado morar junto sem estar num relacionamento firme. E também por gastar o que não podia para manter uma vida a dois.

Se pudesse voltar atrás, também teria terminado em todas às vezes que eu senti que aquilo não daria certo, que eu era apenas uma opção cômoda. Lamento ter me fechado no relacionamento com ela e não ter curtido meus amigos de faculdade. Ela nunca me impediu disso, eu é que não queria desgrudar dela por causa do meu ciúme.

Quando leio sobre relacionamentos tóxicos, penso no quanto mal eu fiz para ela. Sei também que fui maltratado muitas vezes, mas só posso me arrepender dos meus atos. Nunca cometi agressão nenhuma, nem verbal. Mas tenho certeza que minha cara emburrada de ciúme tirava ela do sério e minha necessidade de ter notícias dela a todo momento a sufocavam muito.

Se eu pudesse voltar atrás, tenho certeza que nosso relacionamento não teria continuado. Só que nós dois teríamos anos mais felizes e eu teria histórias boas para contar dos meus anos de faculdade.