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segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Sonhos

Já faz um bom tempo que não tenho tido prazer em nada e me sinto apenas tocando em frente. Há 20 anos atrás, já com dois anos cursados de faculdade, eu tinha muitos planos. Como eu cheguei até aqui assim?

Boa parte dos meus sonhos eram relativos a questões materiais. Talvez por não ter tido nada quando criança, de sempre ter passado aperto, muitos dos meus objetivos passavam pelo "ter". Hoje eu sei que isso tudo era bobagem, pois tenho certeza que um carro, conta recheada ou casa luxuosa não me deixaria feliz. Mas muitas decisões que tomei em nome do "ter" me levaram aonde estou hoje. Com dívidas monstruosas, patrimônio zero e com menos possibilidades futuras de ter bons rendimentos.

Sim, mesmo eu tendo uma profissão com bastante vaga, a idade faz diferença em processos seletivos. Hoje eu sou velho para a minha área de trabalho. E eu, que 20 anos atrás sonhava em ter a vida de luxo que não tive na infância, hoje me preocupo em saber se terei lugar para morar ou dinheiro para comer quando passar dos 60 anos. Eu diria que essa hoje é uma das minhas maiores preocupações e não sei como sair disso. Tudo que eu ganhar nos próximos anos será para pagar as dívidas que, finalmente, parecem estar encaminhadas para serem pagas em no máximo 3-4 anos. 

Mas e aí? Já estarei mais perto da casa dos 50, sem poupança, sem patrimônio e ainda com menos chance de trabalho. Isso realmente me preocupa. O sonho que no passado era vida de luxo, hoje se transformou em preocupação se terei como garantir a mim um fim de vida digno. 

Tenho tido bons resultados no que ando fazendo, embora nada disso se traduza ainda em dinheiro. Mas estou fazendo o que acho correto para aumentar minhas chances de trabalho. 

Às vezes penso que deveria parar de sonhar muito e me contentar em fazer um concurso, mesmo que num nível acadêmico menor do que o meu. Talvez eu devesse parar de ser arrogante e enxergar que essa vida de destaque não é para mim, que ter uma vida digna não passa por ter coisas caras ou por ser referência na minha área. 

A maioria das pessoas simplesmente toca em frente, como diria aquela música do Almir Sater. E são felizes assim. Não vivem no luxo, mas tem vida decente, com nome limpo e até com algum conforto. Talvez porque se aceitem como são e não fiquem buscando mais do que talvez a vida não tenha reservado a elas.

Eu sempre me neguei a ser assim. E onde isso me trouxe? 



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

"Eu to bem"

Quando alguém me pergunta como eu estou, seja no whatsapp ou em alguma reunião virtual, eu simplesmente respondo de maneira protocolar: "eu to bem e vc?". Deveria dizer a verdade? Será que alguém estaria preparado para ouvir:

Não, eu não to nada bem. Minha vida tá uma droga e não aguento mais essa quarentena meia boca. Meia boca porque, embora eu cumpra, um bando de filho da puta fica passeando como se não estivesse morrendo mais de mil pessoas por dia por causa dessa maldita doença. 

Enquanto morre trabalhador, morre profissional de saúde, o gado filho da puta fica seguindo as palavras de um vagabundo que, ao invés de liderar um esforço nacional para combater os efeitos da doença, joga o tempo todo contra e demoramos muito mais do que outros países para ter algum controle dessa merda.

E por causa disso tudo, porque ainda é muito arriscado circular por aí, não consigo ver a minha família. Não estou com eles desde o início do ano e todo dia tenho vontade de chorar porque não posso estar com eles. Queria abraçar meus irmãos, minha mãe e não posso. Não posso porque um bando de filho da puta egoísta só pensa em si. 

Não durmo bem tem meses, estou me alimentando mal e nem para fazer exercícios to conseguindo ter regularidade. Fico me enchendo de tarefas e numa madrugada me dou conta que tenho falado mais com colegas de trabalho do que com meu irmão. Será que ele tá bem mesmo? Não lembro a última vez que ouvi a voz dele. 

Que merda só poder se comunicar com quem amamos por mensagem e por grupos. Que saudade imensa de todos eles. Tem horas q penso: foda-se, vou encarar essas horas de viagem só pra vê-los, mesmo que de longe. Mas não posso e isso me deixa mais puto, triste e com vontade de chorar.  

Eu não to bem. Durmo mal, como mal, vivo mal. Que prazer eu tive nesses últimos tempos? Zero. Os únicos momentos de alegria que tenho tido são de assuntos profissionais. Que merda de conquista. Nem posso dividir com aqueles que amo. 

Tem 19 meses que não tomo SOS. E não tenho tido nenhuma crise de ansiedade. Mas hoje eu queria um remédio para dormir que me apagasse por muitas horas e me fizesse esquecer de tudo. Não consigo ter paz. 

Era isso tudo que queria dizer. Mas não, me limito ao "eu to bem e vc?"



sexta-feira, 10 de julho de 2020

Já perdi a conta

Eu estava contando as semanas em quarentena, mas faz tempo que deixei de contar e me perdi nas semanas. Parte disso é porque passei algumas semanas ou meses extremamente ocupado. Outra possível razão é que contar quantas já foram ou quantas faltam talvez esteja me machucando mais.

Não vou negar que tive progressos, com sintomas de ansiedade cada vez menos frequentes. Já são 17 meses sem recorrer a um SOS, e tive poucas crises de lá pra cá. Os pensamentos hipocondríacos ainda existem, talvez diariamente, mas acho que muito menos do que há seis meses atrás. Isso certamente é um vitória, especialmente nesses tempos de pandemia. 

Se qualquer sintoma era motivo de me questionar se estava ou não com a covid, agora tenho tido poucos episódios desses, ou estou prestando menos atenção a qualquer sintoma físico.

Mas, e tenho certeza que isso acontece com todos (ansiosos ou não), os sentimentos estão bem variáveis. Se num dia me pegando cantando, em outros fico com aqueles sentimentos de que só estou esperando o tempo passar. Muito disso tem reflexo no fato de que fiz aniversário nesse período e aí vem a inevitável reflexão "o que fiz com a minha vida?".

Nas últimas semanas, tenho produzido bem pouco. Acho que quem me lê há tempos deve perceber que uso muito esse verbo. Porque estou sempre com algo pra fazer, o que não quer dizer que realmente eu faça. E aí eu procrastino no YouTube, vendo canais que o meu eu de tempos atrás nunca imaginaria gastar um minuto qualquer.

Quando não estou ocupando meu cérebro com trabalho ou com vídeos inúteis, fico tendo algumas reflexões. Até penso em vir aqui escrever, mas aí arrumo alguma coisa para fazer e até para escrever aqui eu fico procrastinando.

Assunto não falta. As lembranças da guria, saudade da família, dívidas que trazem muita coisa de volta, etc. Falta parar de fazer coisa inútil e produzir algo, seja nos trabalhos ou neste espaço em que sou quase 98% eu.

domingo, 26 de abril de 2020

Quarentena - semana 7

Faz 14 meses que não tomo SOS, mas a última madrugada eu teria tomado, se tivesse algum aqui. Faz tanto tempo que não tomo que os comprimidos que eu tenho perderam a validade. Nem lembrei de pedir outra receita, porque venho tentando não tomar esse tipo de remédio. Mas essa madrugada foi bem complicada...

Me senti mole esse sábado todo, com algumas dores nas pernas. Achei que não tinha a ver com exercícios, já que a última vez que fiz foi na quinta-feira. Mas me senti bem fraco nesse sábado e isso é um gatilho para a minha ansiedade. E aí, durante a madrugada de sábado para domingo, comecei a ficar mais agitado ainda, com dores nos joelhos e incômodo muscular.

Comecei a pesquisar os sintomas na Internet, como faço sempre e fiquei fazendo contas para saber se seria possível eu estar com o tal vírus. Me sentia muito quente e a moleza que estava sentindo parecia mesmo o início de sintomas dessa doença. E tentava imaginar como seria possível me infectar, pois não saio de casa tem 3 semanas e tive dois contatos rápidos com entregadores (um a 2 semanas e outro tem 4 dias) a uma distância razoável, tomando os cuidados de higiene quando entrava em casa. Ficava pensando como seria possível ser infectado, mas lógica não é uma coisa que pessoas com transtorno de ansiedade levam muito em conta nessas horas.

Então resolvi me ocupar. Fiz chá, lavei louça e abri a lista de tarefas para escrever código em Java. E assim fui até mais ou menos 6 da manhã, quando consegui dormir.

Hoje até que passei melhor e agora à noite estou bem. Onde por "estou bem", entende-se por ausência de sintomas físicos evidentes mas não livre de preocupações.

Sei que tenho que ficar em casa e ficarei, pois além do meu compromisso com a saúde de todos ainda tem o meu medo de pegar qualquer doença. Mas, quando isso tudo acabar, será complicado voltar a sair de casa.

domingo, 19 de abril de 2020

Quarentena - semana 6

Incrível como o tempo está passando rápido nessa quarentena. Nem acho que é apenas pelo de eu estar com muitas atividades, mas tudo tem passado bem rápido no que parece minha rotina nessa quarentena.

Acordo tarde, faço lanche e vou cuidar das plantas. Depois, leio os números da epidemia no site worldometers.info e tenho mais esperança em ver que diversos países da Europa parecem virar o jogo. Esperança de que isso aconteça conosco também, seguindo o fluxo natural da doença. Mas temo pelo nosso futuro, em ver tanta gente negar o óbvio e furar o isolamento. Espero que essa gente caia na real antes de virarmos uma Itália. Outros países, como a Áustria, lutaram antes e controlaram a situação antes que virasse uma tragédia como na Itália e Espanha.

Depois dessas leituras, cuido do pequeno espaço onde moro e começo a pensar no almoço. A partir daí, trabalho e tento dar vazão às várias demandas que tenho. Por estar em casa e, apesar de ter essa rotina já tem algumas semanas, sinto que me falta foco para trabalhar mais nas tarefas. Acabo rendendo mais quando está próximo dos prazos de entrega e fico procrastinando até quando não dá mais.

Durante todo dia também troco mensagens com a família e procuro ligar todo dia pra minha mãe. Estou me comunicando mais com minha família e isso ameniza a lembrança que irei demorar a vê-los. Porque mesmo que aconteça o relaxamento das medidas aqui, não me sinto tranquilo de viajar até a cidade da minha mãe e ser possivelmente um vetor da doença.

Aliás, faz 2 semanas que não saio de casa. Recebi duas entregas nessa semana que passou, mas não passei do portão. A última vez que tive um contato pessoal (de conversar) tem uma semana e mesmo assim de longe. Como será quando tudo isso acabar?

Será estranho sair na rua, falar com alguém, apertar a mão das pessoas... E estou falando de algo, na melhor das hipóteses, lá para junho ou julho. Se bem que junho soa muito otimista da minha parte.

Enfim, é torcer para esse tempo continuar passando rápido assim e poder sair dessa prisão.

domingo, 12 de abril de 2020

Quarentena - semana 5

Mais uma semana ficando em casa, dessa vez sem idas até para fazer compras. Resolvi fazer as compras usando serviços de delivery, mesmo sendo mais caro do que se eu fosse ao mercado. Mas estou evitando correr riscos, mesmo para uma saída rápida ao mercado aqui perto. Fico mais tranquilo? Nem sempre.

Cada sensação no corpo já é motivo para ficar preocupado e fazer cálculos para saber quando foi a última vez que tive algum contato com outra pessoas. Nas entregas que recebi nessa semana, procurei manter uma distância segura e tomei o cuidado de levar as mãos, rosto e narinas quando entro em casa. Mas qualquer dor eu já começo a relembrar os passos e analisar onde eu poderia ter errado e ser infectado. Enfim, outra semana convivendo com as preocupações.

Pelo menos os dias têm passado muito rápido. Tenho acordado tarde mas, quando percebo, já é noite. As atividades de plantação, arrumações e exercícios estão fazendo meus dias passar mais rápido. Amanhã fará 30 dias que comecei meu isolamento e parece que passou rápido. O que não parece que passará rápido é essa situação, infelizmente, e isso me deixa muito mal às vezes.

Saudade da família que aumenta ainda mais porque não posso estar com eles. Saudade de sair de casa, para ver o movimento das pessoas.

Não posso me queixar. Sei que sou privilegiado, pois minha vida profissional não parou nada durante essa quarentena, muito pelo contrário. Além disso, os recursos para as necessidades básicas não faltarão e isso é muito diferente de quem perdeu o trabalho e não tem como levar comida para casa. Então, por mais que seja difícil, minha situação é melhor do que de muita gente.

Mas tem horas que bate um desânimo tão grande. Desânimo em perceber que as coisas piorarão muito, especialmente uma parcela considerável de privilegiados como eu insiste em furar o isolamento, colocando a própria vida em risco e das outras pessoas.

Esses dias, quando estava lendo notícias da crise na internet, me senti tão mal ao ler um relato de um óbito de uma pessoa que, aparentemente, era contra o isolamento. Não só por imaginar que uma família ficou sem um ente querido, mas também por ver um número grande de pessoas sem compaixão alguma, debochando de uma coisa tão triste. E aí percebi que preciso limitar meu tempo de leitura de notícias, seja em sites ou redes sociais.

Se eu não fizer isso, sinto que o pouco equilíbrio que tenho há quase um ano irá embora.



domingo, 5 de abril de 2020

Quarentena - semana 4

Já estou na quarta semana de quarentena em casa, saindo muito raramente apenas para compras em mercado. Acho que, desde o dia 13/03, saí de casa umas 5 ou 6 vezes. E cada saída é seguida de vários cuidados de higiene ao voltar, como trocar a roupa, tomar banho com sabão, higienizar as compras e por aí vai. Pessoas hipocondríacas já tomam muitos cuidados, imaginem nessa fase.

Ontem estive em dois mercados e um deles tinha mais gente do que eu acharia normal. Procurei manter uma distância segura, mas fica sempre a preocupação de ser infectado. Para evitar mais preocupação do que eu "normalmente" tenho, vou evitar sair de casa nas próximas semanas. Aqui tem um quintal, que tenho varrido quase todo dia, e isso é uma forma de contato com o mundo além do meu quarto.

Mas qualquer dorzinha ou nariz um pouco obstruído já é motivo para eu pensar que posso estar infectado. E aí vira um gatilho, que dispara diversas sensações no meu corpo. Fico agitado, sentindo mil sensações e ficando ainda mais preocupado do que já sou. Para ter risco zero de infecção, evitarei sair de casa nas próximas semanas.

Estou lidando com essa espécie de prisão de algumas formas. Tenho reservado uns minutos todo dia para pegar sol no quintal, já que aqui dentro não bate sol. Além disso, estou cuidando das minhas plantas e até plantando coisas novas. Tem sido uma experiência muito boa, especialmente quando vejo as plantas se desenvolverem.

Faço exercícios em casa todo dia, alternando cardio e exercícios de musculação. Percebi que dá para fazer muita coisa em casa, mesmo tendo pouca coisa. Tenho um halter, com uns 10 kg de peso, o que estou usando para exercícios isolados. Também tenho feito exercícios usando o peso do corpo (já estava lendo sobre isso antes da quarentena) e a experiência é interessante.

E tem o trabalho/estudo. Isso na verdade nunca faltou e estou envolvido com diversas iniciativas. Então ocupação para mente é o que não falta, embora às vezes eu tenha dificuldade de me concentrar e focar nas diversas demandas que tenho.

Com tudo isso que tenho feito não posso afirmar que meus dias estão passando devagar. Na verdade, estão passando até rápido. Mas, toda vez que penso que essa situação ainda vai se arrastar por mais uns meses, bate um certo desespero, porque não posso sair de onde estou e ficar com minha família. E a saudade tem batido bem forte ultimamente.